A publicação independente compensa?
Você já pensou como seria ter seu livro publicado por uma grande editora? Como a Companhia da Letras ou a Record, por exemplo? Vamos dizer que você enviou seu original para as grandes editoras, uma delas analisou bem e reconheceu o potencial do seu livro, entra em contato com você e pergunta:
- Aceita publicar seu livro por nossa editora?
Você diz sim, eles preparam o texto, para deixar melhor do que já é, elaboram uma bela capa, pedem para um autor da casa fazer uma apresentação. Depois mandam imprimir no mínimo dois mil exemplares, e desses dois mil, pelos menos cem é destinado a críticos, a jornalistas, a blogueiros, a booktubers - sem contar a divulgação nas redes sociais da editora e dos escritores da casa.
Dependendo do projeto de marketing que eles tem para o seu livro, eles conseguem entrevistas para você na televisão, em grandes jornais, arrumam lugares em conferências e eventos literários para você. Sem contar que em alguns casos arrumam até uma turnê, com tudo pago.
Eu ainda não falei do adiantamento, falei? E de que eles podem encomendar um novo livro, não? Tem isto também. Dependendo do que eles enxergam em você, não perderão tempo para te propor muitos contratos. Eu falei que eles vendem o livro no exterior? Eles fazem isto também. Vendem seu livro para diversos países. Agora, vou voltar um pouquinho lá atrás, na pergunta que a editora faz para você caso seu originai seja aprovado:
- Aceita publicar seu livro por nossa editora?
Eu fico pensando que tipo de escritor recusaria uma proposta assim. Mas acredite: parece que tem autores que sim. Eles acreditam que não vale a pena. O lucro do autor é muito pouco, uma mixaria, afinal, vão ganhar dez por cento ou menos de royalties...
Além dos mais, entrando para casa, será apenas mais um escritor... Não terá a mesma atenção que os mais antigos e os grandes... Sem contar que o processo da publicação é lento - geralmente elas levam um ano para colocar o livro no mercado... E outra: a opinião do escritor vale, mas ele participa muito pouco deste processo... Não, melhor não, ele diz, vou partir para a publicação independente...
Então ele contrata uma editora não-tradicional, manda imprimir quinhentos exemplares, convida meio mundo para o lançamento do seu livro e acorda para a realidade - a não ser que ele seja um jornalista, um professor muito querido, alguém que tenha muitos, mas muitos amigos e seguidores, quem sabe aparece cinquenta pessoas.
Estou sendo otimista. Mas vamos supor que ele não é um jornalista nem um professor muito querido, não tem presença digital, não tem seguidores. Ele é apenas alguém que publicou um livro. Então, na noite de lançamento, com muita sorte ele consegue vender, muito por cima, vinte exemplares, restando quatrocentos e oitenta.
Começa então a jornada, ir atrás dos amigos, postar foto da capa do livro nas redes sociais, book trailers, falar dele mesmo, na auto-resenha. Se ele tem dinheiro, consegue algum blogueiro ou booktuber para falar de seu livro. Conhece alguns escritores e pede ajuda para divulgar seu livro nas redes sociais dos mesmos, que poucas pessoas darão crédito.
O escritor vê que seu problema é uma questão de marketing, compra livros como: Marketing Para Autores, que só serve para escritores que vendem conhecimento. Mas ele não vende conhecimento, vende entretenimento. Cria blog, site, paga uma loja virtual, promove, com dinheiro, a fanpage e até consegue vender alguns...
O tempo vai passando e os livros se encontram dentro da caixa. Ele olha para ela e diz: dinheiro parado. Põe alguns livros na mochila e sai de porta em porta, nos comércios, nos bares, restaurantes, pizzarias. Se é descolado, consegue vender tudo, mas dificilmente quer repetir a experiência.
Ele quer, no fundo, vender sem sair de casa, na internet. Melhor, que tenha pessoas vendendo o seu livro para ele, afinal, quem é que tem tempo para vender, divulgar e escrever? Quem? Ainda mais se tem que trabalhar oito horas por dia, fora o tempo gasto no trânsito - eu falei de tempo e esqueci do desgaste...
Portanto, a pergunta pode ser feita novamente: a publicação independente compensa? Antes de responder essa pergunta, preciso fazer outra: você já parou para pensar sobre quem são as pessoas mais interessadas na auto publicação?
Está certo que a febre começou com escritores entusiasmados, mas hoje sabemos que os maiores interessados na auto publicação são os prestadores de serviços: editores, capistas, falsos agentes literários, vendedores de cursos de marketing, enfim, uma cambada que só sabe ganhar em cima de escritores, quando o negócio do livro deveria ter a sua maior fonte de renda nos leitores...
Respondendo: sim se o escritor já tem um publico, compradores para seus livros, e se ele visa participar de concursos que premiam os melhores livros publicados no ano. Não se ele ainda não tem para quem vender seus livros, se ele deseja participar de concursos que exigem que o original seja inédito.
Esse é o meu ponto de vista. Mil vezes melhor ser publicado por uma grande editora do que investir do próprio bolso e correr uma maratona que não dá para saber se chegaremos há algum lugar ou lugar nenhum. Eu sei, ainda haverá pessoas que vão dizer: mas o escritor das grandes editoras tem que ralar também! Sim, sim, mas não ralará sozinho...
Dito tudo, vai a minha sincera opinião: só publique por conta seu livro em último caso, e mesmo assim, confira antes se terá compradores para o seu livro - se não tiver, faça primeiro seguidores...
Glauber Da Rocha é poeta e escritor. Publicou Coisas Da Vida (contos, 2005) Pelas Ruas De Tua Cidade, Ó Morena! (poesia, 2017) e o brilhante livro de contos Com Os Dentes Que Ainda Me Restam, pela ed. Oito e Meio em 2018.
É professor de Filosofia, Pedagogo, Especialista em Educação Especial Inclusiva e apaixonado por Crítica Literária.
Presta serviços de Leitura Crítica e Book Proposal.
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