A publicação independente
Seu original é recusado pelas editoras tradicionais, mas você quer porque quer ter seu livro publicado. Você procura uma editora prestadora de serviços e pública o seu livro. Manda fazer uma tiragem de quinhentos exemplares e aguarda.
O livro fica pronto, capa bonita etc. Você fica feliz, convida o povo para o lançamento, posta o convite nas redes sociais, pede ajuda para os amigos na divulgação. Até no jornal local você consegue divulgar...
Espera no mínimo umas trinta pessoas para a noite de estréia. Então, aí começa o banho de água fria. Comparecem apenas alguns familiares e amigos. Você vende dez exemplares e se tiver muita sorte quem sabe vinte...
Volta com aquela caixa de livros quase cheia para casa, mas você ainda está feliz, o lançamento de um livro tem uma magia capaz de superar qualquer fracasso. Antes de dormir, você pensa: amanhã terei que ir atrás dos amigos.
Você posta nas redes sociais as fotos do lançamento, faz até um vídeo. Fala o preço do seu livro e avisa que entrega, pessoalmente ou pelo correio. Consegue vender mais dois ou três.
Para continuar vendendo seu livro na internet, você continua postando a foto da capa, os livros numa mesa com enfeites em volta, inventa de tudo. Vende, mas um ou outro apenas.
Você cria um blog, um site, uma página para vender seu livro. Cria até um canal no YouTube, para falar de Literatura e de seus livros... Você paga para promover seus canais de divulgação, consegue alcançar milhares de pessoas. Você vende mais alguns, mas não recupera o dinheiro investido no marketing.
Você chega na conclusão de que a autopromoção é algo que cansa e que as pessoas costumam comprar livros por indicação. Uma coisa é você falar que seu livro é bom, outra é alguém falando que vale a pena ler seu livro.
Antes ninguém cobrava por uma resenha, por uma crítica: você mandava seu livro para jornalistas e críticos e logo depois recebia a resposta em algum meio de comunicação, falando bem ou mal dele. Mas hoje não há mais nada de graça nesta área.
Você recebe os orçamentos. Quinhentos reais por um vídeo falando do seu livro, duzentos por uma resenha. Você vê que só um vídeo e uma resenha não mudará em nada a sua vida, o ideal é ter vários vídeos e várias resenhas na internet para começar a ter certa relevância. Você desiste.
Mas os livros ainda estão aos montes nas caixas. Você coloca um punhado deles na mochila, tem até uma maquininha que aceita cartão de débito e crédito, sai na rua. Vai nos comércios, em restaurantes, pizzarias. Vende mais alguns. Às vezes, vende bastante. Ou até tudo, dependendo de sua habilidade para as vendas.
Mas não é isto o que você quer. Você não quer ser vendedor, quer ser escritor. Alguém que as pessoas procuram...
Você então faz palestras, participa de eventos literários, entra para uma união de escritores. Investe energia, tempo, dinheiro. Mas tudo o que consegue é vender alguns livros.
Você então faz palestras, participa de eventos literários, entra para uma união de escritores. Investe energia, tempo, dinheiro. Mas tudo o que consegue é vender alguns livros.
Você percebe que todos ganharam muito bem com a publicação do seu livro: o editor, o capista, o revisor, o cara que te vendeu um curso de marketing, menos você. Você vê então que antes o mercado editorial ganhava em cima dos leitores, hoje os escritores é o alvo.
Mas você não desanima. Inscreve seu livro nos concursos da vida - quem sabe ganhando algum prêmio seu livro passa a ser relevante. Não ganha. E seu livro continua na mesma. E se ganha, pouca coisa muda...
Há ainda muitos livros nas caixas. Para você não perder o investimento que fez, abaixa o preço do livro e vende seus exemplares a preço de custo. Finalmente, após uma batalha maior que as judiciais, você tem seus exemplares esgotados.
Você tem outro livro na gaveta - ou vários outros. Mas pensa mil vezes antes de passar por tudo isto de novo. Se antes você abominava a ideia de ter que precisar do Governo para publicar o seu livro, agora procura editais aqui e acolá. Pede a Deus para nunca mais cair na tentação de publicar seu livro com o dinheiro do próprio bolso. Você tenta se convencer: o que adianta ter livro publicado e muito prejuízo?
Você envia outro original para as editoras tradicionais. Espera a resposta e é recusado. Seu livro está bom, tem um título que desta vez venderá mais fácil. Você procura uma editora não tradicional... Desta vez vai dar tudo certo... Desta vez venderá muito mais livros... Não podemos desistir... É agora ou nunca... E adivinha? Você lança, com o dinheiro do seu próprio bolso, o segundo livro...
Glauber Da Rocha é poeta e escritor. Publicou Coisas Da Vida (contos, 2005) Pelas Ruas De Tua Cidade, Ó Morena! (poesia, 2017) e o brilhante livro de contos Com Os Dentes Que Ainda Me Restam, pela ed. Oito e Meio em 2018.
É professor de Filosofia, Pedagogo, Especialista em Educação Especial Inclusiva e apaixonado por Crítica Literária.
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